Escritora Lourdes Limeira | Categoria Contos | 2 comentarios
VIDA BANDIDA
Ângela nascera em Serra Talhada, interior de Penambuco. Filha mais velha de uma família de doze filhos.
Como seus pais eram paupérrimos, Ângela fora vendida para um gringo espanhol por uma bagatela de apenas R$12.000.00. Para aqueles miseráveis, essa quantia era absurda; nunca, em tempo algum, eles tinham visto tanto dinheiro junto.
_ Meu véo, quanta grana, né? _ a mãe da moça na sua simplicidade.
_ Filó, foi o gringo. Nossa fia já embarcou ontem à noite.
_Que Deus proteja nossa fia, meu véo.
Em Madrid, chegam Rogério, o espanhol que comprou Ângela, e a sua companheira Marajane, a paraíba bonitona, que enfim deu sorte na vida. Havia fugido do interior nordestino, da seca, e emigrado prá São Paulo; lá havia conhecido Rogério na balada. Logo que se conheceram, ficaram juntos, beberam, dançaram, foram para a cama, gozaram e já se amasiaram.
“Ei, gringo, sou uma muié direita. Quando tô com argúem, é coisa séria” _ Marajane após a transa. O casal dia a dia se envolve. Rogério se diz muito apaixonado. Por outro lado, a Marajane interessada em sair do caritó, não queria continuar sozinha como estava há três anos. São Paulo, prá ela, tinha que proporcioná-la um marido cheio da grana. Ela via no Rogério o seu sonho realizado.
Três meses depois do encontro, naquele pagodão, e daquela gozada, Marajane resolve deixar a casa onde trabalhava como doméstica prá juntar os trapos com o gostoso do Rogério.
Em pouco mais de um ano de convívio, Marajane já lhe ajudava nos negócios sujos: Rogério fazia parte de uma gang de tráfico de crianças para o exterior. Inclusive, havia envolvido direitinho a Marajane nessa fria. É tanto que, ela realizaria o primeiro contato com o seu vizinho lá de Serra Talhada.
Por intermédio da Marajane, Seu João pai de Ângela, conhece as intenções do Rogério de levar uma mocinha com ele prá Europa. Assim, acontece a transação. Rogério ingrupe tranqüilamente o pai daquela pobrezinha:
_ É,Sr. João, vai ser maravilloso prá sua filha. Ela ganhará muito dinheiro. O Señor verá. _ sem o menor constrangimento, o Rogério pisca o olho para a lambisgoia da Marajane que estava ao seu lado.
Seu João só não sabia que a sua filha Ângela iria ser levada para prostituição. Estava totalmente por fora dessa história. Mas, sua ex-vizinha Marajane fazia parte de um complô macabro, isto é, também constituía aquela gang internacional de prostituição. Coitado do seu João, ele queria apenas o bem de sua família, e, mais ainda, da filha.
_ Véa, acabou o miserê.
A sina de todos naquele povoado era triste. Viver na roça tinha suas agruras. Especialmente quando São Pedro fechava a torneira como naquele ano, já era final de maio e nem uma gota d’água. O gado tava que era só osso; toda plantação de milho secara. O açude era aquela aguinha barrenta que não dava nem para o uso doméstico, quanto mais para outras coisas.
Ângela, pobrezinha, serviria apenas de objeto de desejo de homens sem escrúpulos. Homens que se divertiam com curtições diferentes, com luxúria e depravação. Dinheiro prá esses era a solução, tanto de suas taras sexuais quanto de todo tipo de excentricidades. Inclusive, transar com gatinhas, com idade entre doze e quinze anos era o que mais os empolgavam.
Enquanto Ângela, inocente:
_ Mare, quero istudá numa escola perto daqui.
_ Não seja boba, menina. Vamo dar tudo para ocê. Prá que essa agora?
_ Quero aprender lê e escrevê, Mare.
_ É, mas num vai da não, viu essa menina. Tu num terá tempo prá estudo não.
_ Mas, Mare…
_ Esqueça.
Ângela não entende, porém fica quieta. “Rogério e Mare deve sabê o que é mió pra eu” _ a menina/anjinha pensativa. Outra, ela não queria fazer nada prá desagradá-los, pois o que mais desejava era ganhar os presentes que a Marajane prometera.
_ Num vai ser fácil vivê longe de mainha, Mare.
_ Ocê tem qui guentá firme, Anjinha.
_ E se eu não consegui, o que vai contecê comigo?
_ Fica queta, sua doida. Fala baixo, se o Rogério escuta…
Momentos depois, Marejane prepara Ãngela prá seu primeiro cliente. “Sinhô Nerson, com certeza, vai se dar muito bem com esse pitelzinho” _ a cafetina toda feliz com aquele encontro, já contabilizava a dinheirama que iriam ganhar com a transação.
Nesse ínterim, Rogério ao telefone:
_ Sí, si,sí. De acuerdo. He comprendido, señor Ramiro. Hasta la vista.
_ Jane, vamos retornar a São Paulo. Era Sr. Jimenez Ramiro ao telefone. Disse que não dava para explicar-me agora, mas que a gente estava em perigo e que voltássemos o mais rápido possível para o Brasil.
_ Mas, benzinho…!
“Que seria do cliente que já se encontrava na alcova à espera de ‘sua chica’? Teria que dar-lhe uma ótima desculpa”. Marajane toda preocupada com o imprevisto; mentalmente, já arruma uma desculpa, de modo que possa contornar a situação, porque ademais o cliente era um dos mais cheio da bufunfa e também mais assíduo na casa; além disso, já pagara 50% referente àquela parada, e olha que não era pouco. Assim o fizera e o Sr. Nelson a entendera.
Horas mais tarde, Marajane, Rogério e Ângela desembarcam no Brasil. Porém, logo que pisam em solo brasileiro são pegos pela PF. A menina calada estava, e permanece assim até a chegada da sua tia Marina, responsável por levá-la de volta a sua terra natal.



Este texto trata de forma radical a relação homens X mulheres como uma “guerra” dos sexos,onde a mulher deve se libertar do julgo do homens e declarar sua igualdade e liberdade.
Minha visão é mais superficial do que a do Marcio.
Acredito eu que esse texto é uma retratação de uma realidade Brasileira.
Uma realidade que nem sempre tem esse final feliz.