mai 17, 2008

Escritora | Categoria Fábulas | 2 comentarios

O MULATEIRO

O MULATEIRO

Imponente, mágico, ileso de todos os nefastos danos que a ele são feitos.

De dia ou à noite, a qualquer hora que se passe, na Praça da Polícia, centro de Manaus, vê-lo. Referência de beleza e elegância. Hirto. Poderoso. Destaque no porte; harmônico no modo de conviver e na estética; e mais, com um ótimo perfume.

É uma lástima ser tão desprezado por aqueles que o rodeiam, aqueles que mais tiram proveito dele. “Lástima mesmo! Eu sou natureza! Cadê o respaldo das pessoas?” _mulateiro mordido de raiva.

Precisa ver na primavera, quando as flores transformam a área ao seu redor num enorme tapete amarelo. Não existe tapeçaria igual. “Nem assim sou apreciado” _ resmunga o mulateiro triste. Século e século ditando a beleza do lugar, mas ninguém nem tum. Mal sabem que o Mulateiro se sente ferido e magoado.

Deseja que fosse diferente, gostaria de ser acolhido por todos que por ali passam.

E, no fundo, ele tem Consciência do tratamento que lhes dão: “Nada mais é que efeito da correria do dia-a-dia. Que as pessoas, na sua grande maioria, vivem exasperadas em busca da sobrevivência. Estou aqui, vê se me ver, seus alienados” _ grita de raiva.

Nada!A indiferença é total. Passam prá lá e prá cá e não dão à mínima. São, com toda certeza, alienados mesmos. Eu que o diga, pois sou testemunha. Porque se fosse diferente, veriam o tesouro ali nas suas ventas.

“Se eu pudesse, colocaria uma placa em letras garrafais ‘OLHA EU AQUI ‘ – Mulateiro gostaria de radicalizar.

Quer saber mais? Nem assim a história seria outra. As pessoas arrancariam a placa e não dariam nem bolas prá o mulateiro. É do tempo essa cegueira. No nosso tempo é cada um por si e Deus por todos. Cada um se livre das intempéries, não estão nem aí prá seu próximo; como vão se importar com um reles mulateiro? Quem sabe se ele morrer de desgosto, ou de menosprezo da população, esses não tiverem mais o perfume que tinham, venham se dar conta, isto é, sintam falta, pois os humanos são assim: só valorizam, quando perdem. Então, será tarde demais.

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  1. Que doce leitura você nos proporciona!
    Mesmo quando acende suas luzes sobre questões tão importantes.
    Um beijo, Nivaldo Costa

  2. Texto muito bom Lourdinha. Estarei publicando em meu site: http://www.romulogondim.com.br
    É preciso enfatizar sempre a memória do e em nosso povo.
    Abraços